ARTIGOS

Vida difícil para os pesos médios

Autor: Tatiana BAUTZER - Data: 27/12/2011

O ano 2011 não foi fácil para os bancos de médio porte no Brasil. Como numa corrida de obstáculos, algumas instituições não conseguiram vencer as dificuldades na captação de recursos e a feroz competição com os bancões. Esse movimento está longe de ter chegado ao fim. Os que sobreviveram à prova  terão pela frente, em 2012, uma nova maratona.  A maioria dos desistentes de 2011 acabou em fusões intermediadas (e financiadas) pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Entre os exemplos estão o Matone, vendido para o antigo banco JBS, do gigante do agronegócio, e o Schahin, adquirido pelo mineiro BMG. Só nesses dois negócios, o FGC injetou mais de R$ 2,5 bilhões para capitalizar os bancos adquiridos, depois dos R$ 3,7 bilhões gastos para sanar o rombo causado por fraudes no PanAmericano antes de sua transferência ao BTG Pactual, em fevereiro. O Morada, que chegou a negociar com o BMG, sofreu intervenção do Banco Central (BC).  

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Descoberta das fraudes no banco PanAmericano, que pertencia ao empresário Silvio Santos, (abaixo)
abalou o mercado de cessão de créditos, fonte de recursos para instituições de menor porte 

A quebra do  banco do empresário Silvio Santos, em decorrência de fraudes na cessão de carteiras de crédito, atingiu uma das principais formas utilizadas pelos  bancos médios para captar recursos. O PanAmericano vendia blocos de empréstimos a grandes instituições, mas não tirava as carteiras vendidas do balanço. A descoberta da fraude gerou uma crise de credibilidade nesse mercado. Além disso, lembra Erivelto Rodrigues, presidente da consultoria Austin Rating, as turbulências na Europa tornaram mais caras e difíceis as emissões de dívida no Exterior, outra fonte de recursos para instituições de médio porte. “Esses bancos  enfrentaram um grande problema de capitalização”, afirma Rodrigues. A concentração bancária reduziu o interesse dos grandes pelas instituições menores, que deixaram de fazer diferença para posições no ranking.  

Na atual onda de consolidação, os negócios ocorreram entre os médios. Outro problema foi o aumento da competição dos maiores bancos do País em nichos de mercado antes  restritos aos menores, como o de empréstimos com desconto em folha de pagamento. Em 2007,  90 bancos ofereciam esse tipo de empréstimo; hoje não são mais que 40,  afirma Renato Oliva,  presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa os bancos de pequeno e médio portes. “Hoje entre os maiores bancos no consignado estão Banco do Brasil, Bradesco e Santander”, diz. Muitos  médios estão revisando modelos de negócio para escapar da concorrência direta com os grandes. Para 2012, Oliva prevê um cenário mais favorável para os bancos pequenos que se adaptem rapidamente ao novo cenário. 

Um nicho onde podem permanecer competitivos é o de empréstimos para empresas médias e pequenas. “Desde que ofereçam aprovação rápida e atendimento que empresas menores não conseguem nos grandes bancos”, afirma Oliva. É assim que o banco Ribeirão Preto, com apenas R$ 400 milhões em ativos,  sediado no interior de São Paulo, mantém seus 450 clientes do ‘middle market’. “Não fico só na oferta de crédito padrão lastreado em recebíveis”, diz Nelson Rocha,  presidente do Ribeirão Preto. A concentração geográfica, como mostra o banco de Rocha,  é um diferencial a ser explorado pelos menores. O Ribeirão Preto atua basicamente na região que lhe dá o nome, uma das mais ricas do Estado, conhecida como a "Califórnia brasileira". O cenário para a captação de recursos ainda é uma incógnita e depende do desenrolar da crise europeia. Aos poucos, o mercado de cessão de créditos está voltando à atividade.
 
A partir de janeiro, entra em operação uma nova central de registros de transação de venda de carteiras, supervisionada pelo Banco Central, que pretende evitar fraudes semelhantes às do PanAmericano.  Oliva, da ABBC,  acredita que os bancos médios podem atrair mais pessoas físicas para aplicar  em CDBs com valores mais baixos e aproveitar o estímulo do governo à negociação de papéis de longo prazo para emitir mais letras financeiras, títulos de dívida exclusivos dos bancos.  O que ninguém duvida é que as fusões e aquisições continuarão a mudar o mercado em 2012, com novos estrangeiros, principalmente asiáticos, e butiques de investimentos na ponta compradora. O processo continuará sendo estimulado pelo BC, que segura aprovações para novas operações, estimulando a demanda pelos bancos disponíveis, e pelo FGC, visto como o novo guardião privado da estabilidade do sistema.